top of page

A constância da incompletude

  • Foto do escritor: Mariane Panek
    Mariane Panek
  • 23 de out. de 2023
  • 2 min de leitura

Desde quando abrimos os olhos pela primeira vez, desnudos, frágeis, um simples pedaço de carne, a única coisa que nos cobre são as expectativas. Quem precisou deixar o quê, para você ter uma casa? Quem precisou abrir mão da educação para que você arrotasse toda noite antes de dormir? Quem já sabia de tudo isso, antes mesmo desse primeiro suspiro? E quem não teve nada disso, quais expectativas já nasceu não atendendo? O abandono dói, mas ser sufocada também dói.


Precisar do outro para sobreviver dói, e não poder fazer escolhas também fura o peito em profundidades incabíveis para quem não viveu. Nascemos, suprindo ou não, expectativas. O fato é que elas estão ali desde sempre.


Chega um momento em que ser expectativa, cansa. Não ter conhecido outra realidade, cansa.

A expectativa da perfeição na infância, do controle dos instintos e do medo da solidão. Depois a expectativa das notas na escola, de suprir as exigências dos responsáveis e de se fingir de cego perante um mundo que você vê tudo, mas não enxerga nada. Ouve tudo, mas não escuta nada. Toca sempre, mas não sente nunca.


Os papéis se misturam com a subjetividade que parece obrigatória, mas em sua maior parte não existe. Formamos um conglomerado de expectativas ambulantes, e de performances a completar (que, sabemos) sempre estão incompletas. Nunca fomos ensinados a entender uma completude, mas aprendemos muito bem a nos sentir incompletos.


A tampa da panela, a outra metade da laranja, a alma gêmea, o chinelo do pé cansado. Somos vistos como alguém incompleto buscando uma outra parte perdida por aí, que deve se expandir e sair pelo meio das pernas de alguém.


De quem? Quem dá a luz, e quem a tira? Quem cuida de quem cuida? Alguém supre a expectativa no fim da pirâmide de expectativas a serem supridas?



Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação

©2024 por Mariane Regina Salles Panek.

bottom of page