Conto: Luz de Lua, corpo de gato
- Mariane Panek
- 10 de jun. de 2025
- 3 min de leitura
Numa casa de madeira, com varanda baixa e cheiro de chá de capim-cidreira, viviam três gatinhas de pelagem branca e preta, com olhos de mata no sol forte. A mais velha era chamada de Estrela, e as outras duas, suas filhas, respondiam pelos nomes de Sol e Lua.
Ninguém no morro sabia ao certo de onde tinham vindo. Um dia, simplesmente estavam ali, enroscadas no batente da porta como se sempre tivessem pertencido àquele lugar. Mas quem olhasse com atenção veria: havia tempo demais dentro daqueles olhos. Tempo que não cabia em relógio. Tempo que carregava poeira de eras.
Estrela era mãe, mas também era memória. Já caminhou por desertos antigos, sobre telhados e ruínas onde reis caíram e crianças sonharam. Tinha visto o nascer de cidades e o apagar de fogueiras. Em todas as suas vidas, lembrava-se de estar perto das mãos humanas em momentos cruciais, silenciosa como uma sombra, mas inteira como uma testemunha.
Lua era a mais inquieta. Tinha o faro das coisas que ainda não nasceram. Vivia farejando o vento, escalando muros como se procurasse um mundo que só ela conhecia. Sol era diferente — olhos firmes, silêncio demorado. Observava tudo como quem já sabia o fim, mas aceitava brincar mesmo assim.
As três não miavam à toa. Quando miavam, era porque algo havia mudado no ar. Sabiam ler o mundo pelo cheiro da chuva, pelo ranger da madeira, pela curva que a fumaça fazia no tardar dos domingos. E sabiam, sobretudo, que não eram bichos domesticados.
Eram presenças emprestadas por um celeste consciente, um sopro de estrelas com corpo de pelo e ossos leves, enviadas para acompanhar os humanos em suas travessias. Participantes ativas da construção da Terra.
Não havia misticismo nisso. Havia propósito.
Estrela sabia que sua missão, agora, era ensinar às filhas o que sempre soubera: que a Terra era um dos muitos pontos de cruzamento entre mundos, e que as gatinhas, quando dormiam enroscadas, estavam na verdade percorrendo essas linhas invisíveis.
Lua sonhava com escadarias de pedra que levavam ao céu. Sol sonhava com pessoas que ainda não tinham nascido. Estrela, que quase não sonhava mais, apenas ouvia. E, ouvindo, sabia quando era hora de mudar, de se mover, de insistir algo à dona da casa, aquela mulher de pés rachados e coração esgotado, que achava que as gatas só queriam comida, mas que, no fundo, sentia que havia algo sagrado na companhia delas.
Naquela noite, o céu parecia mais baixo. As nuvens se arrastavam como se buscassem um ninho onde descansar. As três gatinhas se reuniram no jardim, em silêncio, olhando para cima. Um miado curto escapou de Sol. Estrela ronronou como quem sabia. Lua girou sobre si mesma, três vezes, depois cruzou o portão como quem conhece o caminho de volta para casa. Em outro lugar, mais antigo e mais distante.
Não voltou.
A mulher da casa passou os dias seguintes repetindo seu nome como reza. Espalhou comida, vasculhou ruas, deixou aberta a porta da frente. No fundo, sabia. Mas o corpo teima em esperar aquilo que o coração se recusa a aceitar.
Sol e Estrela mudaram de comportamento. Dormiam mais perto da humana, vigiavam a noite com olhos atentos, como se coubesse a elas manter o mundo em ordem agora que Lua se fora. De vez em quando, um cheiro tomava conta da varanda sem aviso — lembrança de pelo molhado com lambidas carinhosas.
Com o tempo, ninguém mais chamava por Lua em voz alta. Mas nos dias em que o vento mudava, em que o céu ficava lilás antes do anoitecer, era como se ela miásse de volta, só por um instante.
E numa noite de estrelas miúdas, quando a solidão se sentava devagar ao lado da mulher, ela viu no céu uma constelação que antes passava despercebida. Três pontos de luz, alinhados com exatidão, como quem ainda dorme junto.
Não era consolo. Era reconhecimento.
E foi assim que entenderam: algumas partidas não são ausência, são mudança de forma. E algumas gatinhas, quando partem, voltam a ser o que sempre foram: estrelas com corpo quente, emprestadas por um universo que, às vezes, devolve.


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