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A luta pós luto

  • Foto do escritor: Mariane Panek
    Mariane Panek
  • 13 de jun. de 2023
  • 2 min de leitura
Deixa eu te convidar
Para no meu barquinho entrar
Ele irá navegar
Pelas escuridões do mar

Essa experiência teria a função
De te dar locomoção
A uma viagem profunda
Que de alguma forma te inunda
Com sentimentos verdadeiros
Mas ao mesmo tempo
Confusos e sorrateiros

Eles não dizem o que querem
E no meio do alto mar
É difícil processar
O desafio de sobreviver
Se mistura com o desejo
da própria história compreender

Digamos que escolheu sair sozinho
Depois que recebeu um pergaminho
Com a notícia que sua amada
Teve a vida retirada
Seus planos deixaram de fazer sentido
E você passa a negar
Tudo, até então, vivido.
Mas existem outros passageiros
Que subiram no meu barquinho

Alguns perderam o trabalho
Mas não simples assim
perderam a estrutura imaginária
Que sempre foi precária
precisaram eles mesmos
matar falsos desejos
Depois que notaram sua insignificância
nesse sistema de inconstância

Há quem sempre idealizou
A suposta família perfeita
Tão estrutural que parece seita
Cada um com seu papel
O marido com certeza fiel
O filho teria que carregar
tudo que todas as gerações
não conseguiram alcançar

Também há o fim constante
de sonhos que duram um instante
de quem teve a falta de sorte
de viver um sistema patriarcal
que parece só discurso habitual
Mas mulheres morrem todos os dias
mortes materiais e simbólicas
por terem o peso de representar
uma opressão milenar
que usa o fraco para a força da mulher
estruturalmente, desestabilizar

Há quem até mesmo sobre amor
busca ter propriedade quase privada
das formas de estar com a pessoa amada
"lésbica é quem está desviada"
Quem precisa dessa narrativa
está em uma fuga ativa
de não entender o amor
para longe do sistema opressor

Ao repetidas vezes, internamente,
se mutilar
Já que seus desejos, constantemente,
busca matar
Passam a direcionar ao outro
a negação que já não cabe mais
nem mesmo em si.

O luto desempenha, sem dúvidas, um papel
mas ele não se restringe a morte do corpo
e nem é um sentimento restrito ao morrer
Ele também ajuda a construir o viver

Somos ensinados a nos bloquear
e não conseguir de jeito nenhum
potencialidades enxergar
o morrer do outro parece grande
e será triste independente de onde ande

Fica na tarefa da cultura
interpretar essa tristeza
e adaptar ao seu povo a ideia do seu fim
Esse sentimento tão confuso
De potencial criativo difuso
Que pode estar no fim de um ciclo
ao uma identidade encerrar
não apenas sobre alguém enterrar

A sociedade ocidental restringiu
que só podemos viver intenso sentimento
quando o outro se vai
na verdade, o luto está em todo lugar
socialmente ou individualmente, presente vai estar
nos fins que costumamos adiar
por temer um processo
que faz parte do progresso

a morte faz parte da vida, e o fim sempre representará
o início de outro algo que do seu controle fugirá
mas com uma construção da ideia de fim
e ao compreender a importância de findar
se permita também os fins presenciar
para novos ciclos começar.





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©2024 por Mariane Regina Salles Panek.

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